CORPO M A/E RCADO
Renan Silva¹
O
corpo humano é um conjunto somático de sistemas, órgãos, tecidos, enfim,
células que se unem e determinam, em conjunto, uma função específica. O
conjunto dessas funções possibilita que o corpo possa se movimentar, digerir,
respirar, dormir, e varias outras coisas. Até esse ponto não tem diferença
entre esse corpo com os dos outros animais, mas o ser humano vai além da
construção fisiológica. O homem pensa, tem sentimentos, tem vontades, tem memórias, que vão além dos extintos.
O
homem trás uma anamnese em seu corpo,
carregando marcas do tempo. Este processo se inicia na concepção e vai até a
morte/deterioração. Leloup diz que “O nascimento é uma doença da qual nunca nos
recuperamos” (LELOUP, 1998. p.19), a partir do nascimento é que começamos a
batalha externa pelos nossos desejos. O corpo humano nesse período sofre as
consequências do seu modus vivendi e
isso no decorrer da vida gera uma sensação de insatisfação consigo mesmo.
A
busca pela satisfação com o corpo é um fato histórico. A humanidade caminha
através da história, passando por vários períodos e cada período tem suas
características especificas que muitas vezes se repetem ao decorrer do tempo.
Podemos
comparar essa repetição com um pêndulo de um relógio antigo. Ele vai, percorre
todo um caminho, chega a um extremo e depois volta. Um exemplo deste efeito
pendular hoje é essa supervalorização e a preocupação com o corpo, com a
estética e com a imagem.
Na
Grécia antiga existia uma cultura onde os homens deveriam ter corpos bonitos e
bem definidos, por isso, os gregos faziam esculturas destacando a beleza
física. Hoje essa valorização de corpos bonitos se estende para toda sociedade,
impulsionada pelo avanço tecnológico das indústrias visuais e midiáticas.
Fragrâncias,
moda, plásticas em todos os lugares possíveis e “impossíveis”, essas, entre
varias outras práticas estéticas, marcam essa nossa realidade cultural
contemporânea. Tal realidade está estampada na Televisão, no cinema, nos sites
de relacionamentos, enfim, nas milhares propagandas, que além de divulgar um
produto, criam um ideal de beleza aos moldes de um corpo esteticamente
perfeito. Este ideal fez com quem o corpo deixasse de ser apenas uma anamnese, de ser um corpo marcado, para
ser um corpo mercado.
A
grande questão é que estes estereótipos de belezas são apresentados como
sinônimos de uma vida feliz, em paz, plena e harmoniosa. Assim esse mercado cultural não está vendendo
apenas rostos bonitos ou bíceps bem definidos, está vendendo sonhos que podem
levar à pessoa a frustração, ao desespero ou até a depressão.
Muitas
pessoas quando veem uma vida perfeita estruturada no ideal de um corpo
perfeito, mudam sua rotina, fazem regimes, vão à academia. Transformam seu modus vivendi. Pelo lado da saúde é bom
esse modo de vida, mas o problema é a pessoa pode ficar tão fissurada com o
corpo ideal que acaba se abstendo de outras coisas essenciais em sua vida e
nunca se satisfazer com o corpo que tem.
O
culto pelo corpo também é resultado da avaliação social que todos passam todos
os dias. A classificação tênue que é feita, separando o gordo do magro, o
bonito do feio, o alto do baixo, faz com que o corpo seja alvo de críticas,
levando assim a insatisfação.
O
caminho a ser percorrido pelas pessoas é o de não deixar que o meio externo
seja mentor daquilo que a própria pessoa é, pois as satisfações, a alegria,
devem partir do eu interior; não que seja um incentivo ao desleixo ou a falta
de cuidados pessoais, mas sim que, se possa encontrar um equilíbrio entre o que
é realmente necessário na vida.
Como
um pêndulo, pode ser que esse “corpocentrismo” perca o foco e esse ideal de
corpo perfeito fique de lado com o passar do tempo. Mas uma vez que estamos
vivenciando este período vamos fazer como diz Leloup “... se podemos correr
dançando para um abismo, mais valeria coxearmos em uma direção que tenha um
sentido.” (LELOUP, 1998. p.17)
¹Bacharelando
em Filosofia na Faculdade Católica de Pouso Alegre.
BIBLIOGRAFIA
LELOUP,
Jean-Yves. O corpo e seus símbolos:
uma antropologia essencial. Petrópolis: Vozes, 1998.






